Revisitando as sementes

Revisitando as sementes

 

 

Em 2003 um amigo sugeriu que colocasse por escritos nossos encontros de estudos semanais. Houve poucos intervalos.

Dei o nome de Sementes de Iluminação e arquivo cada ano.

Agora, tempo de ficar em casa cuidando da pandemia, vi pessoas revisitarem suas fotos, filmes antigos, limpando armários, procurando antigos amigos… então, resolvi revisitar estes 17 anos de textos.

Abri o ano de 2003 e encontrei o primeiro texto foram palavras de Dilgo Khientse Rinpoche. Mestre amável, um homem grande, mas acolhedor como uma grande mãe e sorriso largo inesquecível. Na internet é possível encontrar bastante coisa sobre ele.

Ele foi Mestre dos Mestres da Tradição tibetana que tivemos o privilégio de encontrar nestas décadas depois da ocupação do Tibet pelos chineses. Mestres que precisaram fugir de sua terra para vir para nossas terras nos ensinar.

Praticamente todos os Rinpoche foram seus alunos até o final de sua vida, inclusive SS Dalai Lama.

Ele foi um dos incentivadores do movimento contemporâneo não sectário Rime, acolhendo todas as tradições budistas.

Dilgo Rinpoche era Mestre da tradição da Grande Perfeição, com nome Dzochen, baseada na total tolerância de tudo e todos. Como um céu que acolhe a vida de todos e de tudo. Como um oceano que acolhe todas suas ondas, marolas, reflexos e movimentos.

Texto bom para essa época! Copio a seguir alguns trechos de seu ensinamento.

“A prática da Grande Perfeição na vida cotidiana”

Por Dilgo Khientse Rinpoche

 

A prática diária da Grande Perfeição consiste em cultivar simplesmente uma plena aceitação sem preocupação e uma abertura de todas as circunstâncias

Devemos experimentar tudo completamente, sem tentar nos esconder dentro de nós mesmos como a marmota em sua toca, nos relacionar com o próximo sem artificialidades, manipulações e estratégias.

A princípio tentarmos permanecer presentes neste momento pode provocar certo temor, porém se dermos acolhida à sensação de temor com plena abertura atravessaremos esse obstáculo criado por nossos condicionamentos emocionais habituais.

Quando chegarmos ao fim do nosso trabalho do descobrimento do espaço devemos experimentar um sentimento de plena abertura para com todo o universo.

Esta é a comum e poderosa prática, deixar cair nossa máscara de autoproteção.

Devemos compreender que o objetivo da meditação não é submergirmos profundamente em nosso interior nem nos retirar do mundo. A prática é livre, sem conceitos, sem introspecção nem concentração.

A base também conhecida como a mente pura, original que é a fonte da qual emergem todos os fenômenos.

Tudo é naturalmente perfeito tal como é. Todos os fenômenos emergem de maneira única como parte de um processo de continua transformação.

A prática de Grande Perfeição é a própria vida cotidiana. Como não existe um estado inferior não há necessidade alguma de se comportar de modo especial ou alcançar nada acima além do que já somos realmente.

Também devemos evitar pensar em nós mesmos como pessoas carentes de valor, porque nossa verdadeira natureza é naturalmente livre e não condicionada. Estamos intrinsecamente iluminados e consequentemente não carecemos de nada.

Quando abordamos a prática de meditação devemos faze-lo de modo natural como comer, respirar ou defecar; não temos que converte-la num acontecimento especial ou formal cheio de seriedade e solenidade.

Portanto devemos nos sentarmos simplesmente, permanecendo em nosso próprio lugar, em nossa própria condição tal como ela é e sem pensar que estamos meditando.

O contínuo fluxo e novas descobertas, inspirações e revelações que emergem a cada momento é a manifestação da nossa própria claridade.

Devemos ser naturais e espontâneos, aceitando tudo e aprendendo com tudo.

Isso nos permitirá perceber o lado irônico e divertido de muitos acontecimentos que geralmente nos irritam.

A mera imersão na meditação no momento presente com todo nosso ser, livre de dúvidas, aborrecimentos e explicações é a Iluminação.